Bater nos nossos filhos

Aqui está mais um comportamento repetido automaticamente por grande parte dos pais (arrisco-me dizer, pela maioria), sem questionar. Só porque apanhamos um dia, toca a perpetuar o comportamento, sem perder um segundo a pensar no assunto.

Entre os pais que batem, há os que batem por tudo e por nada, usando as mãos e um sem número de objectos famosos e há os que se colocam acima destes, falando da “palmada na hora certa”, dada de forma “mais estratégica”. Estes últimos gabam-se de não reagir a impulsos, mas sim de o fazer de forma planeada e, por isso, mais eficaz. Meus queridos, não vejo diferença entre uns e outros, na minha opinião todos os pais que batem, seja de cinto, seja com as mãos, seja “uma palmadinha na fralda”, seja um arraial de porrada, cometem um erro grave! Sim, depois podemos discutir o grau de gravidade segundo a duração da violência ou a força com que se aplica MAS bater é SEMPRE errado.

Vejam só a vossa incoerência ao baterem nos vossos filhos por estes terem batido num colega da escola ou num irmão. Vocês ensinam (pensam que ensinam) os vossos filhos que não devem bater aos amigos, batendo-lhes! Conseguem parar um momento e perceber no quão confuso isso será para uma criança?

Vamos lá ver. Pune-se, critica-se, examina-se em rodas de amigos, na televisão, nos jornais, qualquer acto de violência praticado entre dois adultos. Se um homem bate a uma mulher, ai jesus, que coisa grotesca; se um filho bate a um pai, UI, é caso para ser internado imediatamente; se dois amigos resolvem andar à chapada, que vergonha, que vergonha; mas se um pai, adulto, com mais de metro e meio, resolve bater numa criança, indefesa, pequenina, uau isso merece aplausos. Como é que podem aplaudir e apoiar a violência aplicada aos seres mais indefesos e inocentes? Como podem criticar a violência entre dois marmanjos adultos e glorificar a violência praticada contra um bebé ou criança? Como dizem amar os vossos filhos acima de tudo, e escolhê-los como únicas vítimas da vossa agressão física? Se uma mulher apanha do companheiro, sai de casa, chama a polícia, faz um escândalo, ou esconde-se, procura grupos de apoio. Uma mulher é maior do que uma criança, conseguem compreender isso?? Se uma mulher disser ao parceiro “não me apetece arrumar o meu quarto” e ele lhe responder com um estalo na cara e um grito “arruma já!” achamos isto terrível, mas se trocarmos a mulher por um filho, e o parceiro por um dos pais, achamos isto educativo! Por favor, PENSEM! Não é porque os nossos pais, tios e vizinhos o faziam, que temos de repetir tudo religiosamente. Interroguem-se sobre cada um dos vossos comportamentos. Quais é que são realmente válidos? Quais é que são repetidos apenas?

Olhem para os olhos dos vossos filhos, olhem para os vossos filhos, encolhidos, a protegerem a cara com as mãos, quando vocês se aproximam a gritar e com a mão levantada. Querem mesmo que os vossos filhos tenham medo de vocês? Querem que cresçam como adultos amedrontados, frustrados, que acreditam que apanhar daqueles que amam é válido e positivo? Eu torço-me toda quando ouço um adulto dizer “olha, eu apanhei e acho muito bem”. Como é que chegamos ao ponto de acreditar que realmente merecemos ser vítimas duma agressão por parte daqueles que nos dizem amar mais?? Não digo que se revoltem contra os vossos pais, digo que os perdoem.  Mas vão ainda mais longe, quebrem o padrão, usando o afecto como forma de criar e ajudar os vossos filhos. Leiam sobre disciplina positiva, compreendam que cada fase etária traz desafios e que há estratégias para lidar com eles da melhor forma, sem dor, sem terror. Compreendam que não bater não é o mesmo que permitir tudo e mais alguma coisa. Dar apenas amor não é o mesmo que permissividade desenfreada.

Querem que os vossos filhos arrumem o quarto porque gostam de o ver arrumado, porque gostam de ajudar, ou porque têm medo de vocês?

Transformem os vossos comportamentos, transformem as vossas vidas. Mamãs, ouçam o vosso instinto, olhem bem para os vossos filhotes, o que querem ver nos olhinhos deles? Amor, doçura, cumplicidade ou um amor misturado com terror, com rancor?

Comecem pelo dia de hoje… ❤

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3 comments

  1. Tão bom ler este texto. Sou mãe há pouco tempo mas toda a minha vida fui educada sob esse princípio, os meus pais nunca foram apologistas da palmada, nem a torto e a direito nem na hora certa, ponto. E acredito, piamente, que tanto eu como o meu irmão somos adultos bem educados. Assim pretendo seguir com a educação da minha filha. É me inconcebível praticar violência em nome da educação quando não acredito na violência, ponto. E pior, dói-me o coração ao imaginar a dor, física e não só, que infligiria à minha filha.
    As pessoas têm dificuldade em acreditar numa educação positiva e crêem que quem o pratica é condescendente às vontades e quereres da criança, criando assim seres mimados e egocêntricos. E por mais incrível que pareça já senti olhares e comentários críticos em relação à minha postura neste assunto.
    Muito bom texto, retrata bem a essência da educação positiva.

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    • Sei como são esses olhares. Sempre que o meu filho tem um momento de tensão na rua (ou chora, ou grita), as pessoas olham à espera que bata, ou olham e dizem “pois, não bate nele, ele abusa”… E não entendem que quando uma criança está a chorar, não está propriamente a desafiar… está a sofrer.

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  2. Sendo eu psicóloga, o que eu oiço é: “pois,vem com as manias da Psicologia…e acha que não se deve bater nos meninos!” Acho, continuo a achar e defenderei essa tese. E não é por causa da Psicologia…mas sim por me lembrar da minha própria infância e lembrar que resultava muito mais quando era castigada (não ver televisão, não ir passear quando todos os primos iam…etc) do que propriamente quando era alvo de agressão. E o reforço positivo é muito importante. O meu filho tem 3 anos e percebe que quando faz asneira a mamã fica triste. Mas quando faz algo bem, a mamã faz uma festa!!!! Converso muito com ele… digo que fico muito contente se ele arrumar os seus brinquedos…que fico muito contente se ele arrumar os seus sapatos no quarto…e hoje, quando chega a casa, ele descalça os sapatos e vai arruma-los sem ser preciso dizer alguma coisa. Jamais quero que o meu filho olhe para mim com olhos de terror. Os nossos filhos, são seres que dependem de nós, que confiam em nós…não são os nossos sacos de pancada quando algo corre mal no trabalho, quando estamos perante dificuldades financeiras… é um desafio tremendo ter um filho…mas o abraço que eles nos oferecem, o beijo, o “mamã, gosto muito de ti”, é a recompensa de todos os sacrifícios que fazemos por eles.

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