O parto é nosso

Esta semana tive o privilégio de ver nascer um bebé. Aliado ao enorme prazer de assistir ao nascimento duma nova vida, houve também o enfrentar de alguns medos (diria melhor, terrores), que carrego, colados à memória do parto do meu filho. Fez-me pensar, novamente, nas mulheres que vivem traumatizadas, não pelo processo doloroso do parto, mas pelos abusos que sofreram nas mãos de supostos profissionais de saúde. É que existe diferença, entre as mulheres que carregam um trauma que consideram justificado (“doeu, mas teve de ser assim”, “fui para cesariana porque tinha de ser”), e as mulheres que sabem que foram desrespeitadas. Sem dúvida, há um peso ainda maior para as segundas, há uma revolta, uma ferida que lateja e que parece impossível de curar.

Se, por um lado, há mulheres que entram num hospital e confiam nos médicos (confiam que eles estão a fazer o melhor que podem e sabem), por outro, há mulheres que têm noção de todos os processos desnecessários e abusos de que estão a ser vítimas. Embora possa haver memória de dor e esforço para ambas, parece-me que a ferida fica um pouco mais profunda, quando se sabe que houve negligência, pois existe diferença entre o acreditar que tudo foi feito com a melhor das intenções, e o saber que se sofreram violações emocionais e físicas.

Quando o meu filho nasceu, e eu tentava descrever o horror que vivi, a maioria das mulheres dizia-me “oh, isso é normal”, “pelo menos tens o teu filho, isso é que importa”, ou “os médicos sabem o que fazem”. Eu respondo-vos: NÃO, NÃO É NORMAL! Sim, o meu filho importa, MAS também me importa ser ouvida e respeitada. Não, muitos médicos, enfermeiros/as, parteiros/as NÃO sabem o que fazem, e além de não saberem o que fazem, ainda gozam, abusam e prejudicam propositadamente. Parece exagerado? Pode parecer, mas, infelizmente, é a realidade de muitas mulheres.

Ainda me impressiona esta categoria médico-deus que criamos. Eu vejo, claramente, nos corredores dos hospitais, nos centros de saúde, e até na rua, a postura das pessoas quando falam com os médicos, meio curvadas, a voz mais baixa, mais trémula, o olhar que se desvia para o chão. Mudam-se os tempos e os termos, mas o que vejo é pessoas a prestarem vassalagem, pessoas que falam com cuidado aos seus senhores. Temos de quebrar isto! Os médicos não são deuses, não estão acima de nós, não têm razão em tudo! Podem e devem ser questionados! Nós temos o direito pedir mais opiniões, de procurar alternativas, de exigir o respeito dos nossos direitos, e, sobretudo, devemos confiar mais nos nossos poderes, poderes como mulheres e mães, nos nossos poderes como curadoras e transformadoras da nossa saúde. A nossa saúde depende de NÓS, do que NÓS fazemos e paramos de fazer, do que comemos, do que não comemos, do que colocamos na pele, no cabelo. O parto depende de NÓS, do nosso ritmo, do ritmo dos bebés, da posição que temos direito de escolher. Sim, temos o direito de ter um parto no hospital, se assim decidirmos, temos direito de ser auxiliadas quando sentimos medo, mas com respeito, com compreensão, sem chantagem, sem ameaças. Temos o direito a ser recebidas por profissionais que entendem e respeitam o ritmo NATURAL dum parto. Sim, existem partos difíceis e que triunfaram graças a cesarianas e outros recursos, mas isso não apaga os casos diários de abuso, desrespeito e traumas que jamais se esquecerão.

Abraço todas as mulheres que foram abusadas, ignoradas, agredidas, cortadas, gozadas, reprimidas, que choraram, que gritaram, que imploraram, que desejaram morrer, que viram os seus filhos nascer e tiveram de dividir-se entre a alegria desse amor novo e avassalador, e o desespero da lembrança daquilo que acabaram de viver. Vocês não têm culpa, vocês não foram fracas, vocês não são menos capazes como mães e mulheres parideiras. O que vocês sofreram não é normal, o que vocês viveram não é justificado.

A nossa dor É legítima.

Vocês não estão sozinhas.

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