As nossas crianças e o vegetarianismo

Que bom ver tantas pessoas interessarem-se por mudar a sua alimentação! Que bom ver este despertar de consciências, ver esta vontade de ajudar animais, de ajudar o planeta. E que bela recompensa, se ao ajudarmos os animais, somos brindados com uma saúde vibrante e uma energia mais límpida! Eu nem sonhava com uma mudança destas! Se me dissessem que os meus problemas de saúde iam desaparecer em semanas, problemas que tive a vida inteira, com certeza não teria acreditado!

As redes sociais têm muito de mau, mas esta proximidade, esta liberdade de comunicar e passar informação, é preciosa. Lembro-me há 16 anos, quando decidi parar de comer animais, como as coisas eram diferentes. Não conhecia ninguém vegetariano, nunca sequer tinha ouvido a palavra! Para mim foi um choque! Foi um choque, principalmente, entender por que razão eu nunca tinha parado para pensar no que estava no meu prato, dentro do meu pão, misturado com as minhas batatas. Esta dessensibilização é impressionante, não acham?

Digo sempre aos pais que comem de tudo, que pelo menos dêem o direito aos filhos de decidirem se querem começar a comer animais ou não. Esperem até eles terem discernimento, esperem até eles entenderem que aquele filamento fibroso no prato não é o mesmo que a batata que o acompanha. Deixem-nos decidir se querem entrar nesse caminho, isso é que é justo. Mesmo os pais comendo, não justifica que os filhos tenham de comer. Também não dão álcool só porque bebem vinho, nem colocam piri piri no prato deles só porque colocam nos seus. Podem esperar, DEVEM esperar. Se acham que explicar a uma criança com 1 ano ou 2, que a carne é um pedaço dum porco ou duma galinha, é violento e desapropriado, isso não dirá bastante sobre a vossa opção de comer animais? Se mostramos a uma criança que a alface sai da terra e a maçã sai da árvore, e temos de esconder que o bife vem da vaca, isso não prova de que é algo menos positivo?

Se são adultos e se comem animais, pelo menos dêem a oportunidade aos vossos filhos de fazerem uma escolha consciente, em vez de terem de lidar com o conflito mais tarde entre o gosto daquilo que se habituaram a comer e a descoberta do horror que existe e de que são parte activa nisso. É um choque descobrir o que os animais sofrem, é um choque descobrir que comemos os animais sem pensar nisso durante uma vida, é um choque aquele momento em que temos de deixar de comer tudo que comíamos e gostávamos.

O meu filho tem 3anos e alguns meses, é vegano, já tem noção que o que vê no prato doutras pessoas é de origem animal. Nunca lhe expliquei o sofrimento dos animais, nem acho apropriado fazê-lo nesta idade, simplesmente lhe digo que são animais, que é leite que uma vaca produz para os filhos dela, como o meu é produzido para ele. Ele entende isso, não vive em choque, porque ainda não entende o conceito de que é preciso um animal sofrer para o comer, mas entende que comer animais é diferente de comer uma maçã, ele olha para uma vaca e percebe que não tem desejo de comê-la (como qualquer um de nós). Com a carne é menos claro, porque ele vê coisas estranhas nos pratos e não questiona o que é, mas com os peixes é mais óbvio, ele vê ali um peixe inteiro numa bandeja ou num prato. Já lhe perguntaram se quer experimentar, ele respondeu sempre com um não gritado, para ele aquilo realmente não é comestível. E eu entendo perfeitamente isso, até para mim, que comi animais durante 20 anos, é estranha a ideia de comer um bicho, acho surreal eu ter comido algum dia algo com olhos, algo que respira, algo que se reproduz. Tenho a certeza que a maioria das crianças não quereria começar a comer animais se a deixassem escolher. Olhamos para uma pêra numa árvore, olhamos para um coelho a saltar, dá-nos vontade de ir trincar o coelho? Nunca… Comemos porque começamos a comer sem saber o que era e continuamos a comer sem pensar nisso… Dessensibilização.

Está na hora de darmos às crianças a oportunidade de decidirem o seu caminho. Estamos aqui para orientá-las, não para decidir por elas. Que direito temos nós de as enganar? Que direito temos nós de decidir uma profissão por elas? Que direito temos nós de as obrigar a vestir de determinada forma? Sim, temos o dever de guiar, de nutrir, de cuidar, de agasalhar, mas temos a obrigação de olhar para elas, de as compreendermos, de vermos a sua real natureza e aí ajudá-las a explorar o caminho que elas mostram querer seguir, explorar os talentos que elas mostram ter. Não desejo que o meu filho seja astronauta ou jardineiro, médico ou advogado, não desejo que seja gótico ou betinho, desejo que seja FELIZ. Desejo que tenha a liberdade sempre, de ser o que é, que tenha a possibilidade sempre de desenvolver aquilo que quer compreender melhor, que tenha as ferramentas que lhe possibilitem criar o que deseja criar. Não estou aqui para fazer escolhas por ele, estou aqui para ajudar a abrir as portas que ele empurra para espreitar, estou aqui para colocar as mãos, como um degrau, para ele poder subir um pouco mais alto, estou aqui para lhe facilitar o caminho, compreender o caminho, ouvir o caminho, nunca para o decidir por ele.

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3 comments

  1. (function(d, s, id) { var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0]; if (d.getElementById(id)) return; js = d.createElement(s); js.id = id; js.src = “//connect.facebook.net/pt_PT/sdk.js#xfbml=1&version=v2.3”; fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);}(document, ‘script’, ‘facebook-jssdk’));

    This little girl will melt your heart <3Posted by Best Video You Will Ever See on Sexta-feira, 3 de Julho de 2015

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  2. Sou mãe de gémeos vegetarianos de 19 meses.
    Uma das grandes questões de toda a gente, mais do que da alimentação, porque sabem que nisso sou bem informada, é o direito deles em comer carne.
    Este texto é maravilhoso. Não podia estar mais bem explicado onde reside o direito deles. Efectivamente, o direito de não comer carne. Até quando eles bem entenderem!

    E em relação às profissões… Costumo dizer que se um deles quiser ser varredor de lixo porque o adora, que nada me fará mais feliz…
    Este tipo de visão anti-capitalista, anti competição desenfreada pelo poder e status, poderá ter a ver com o não comer carne? 😉

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    • Tão bom ler palavras assim 🙂 Exactamente isso, o direito de não comer carne. Gostaria de dizer que essa visão anti-capitalista, anti-competição desenfreada pelo poder e status tem a ver com o não comer carne, mas conheci já muitos vegetarianos, e há de tudo, infelizmente o vegetarianismo não é um atestado de bondade absoluta. Mas ajuda… Se colocamos o bem-estar alheio acima do nosso paladar, mostramos sensibilidade para muito mais. Beijinho

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