Essa gruta que visito, mas não habito

Já tentei tirar o cinto mil vezes na vida, achando que durante um tempo iria nadar em águas calmas. Não, a minha vida não é um lago estagnado, é um rio com correntes e serpentes, não há forma de a controlar ou prever.

Não vou negar, às vezes apetece relaxar e flutuar na água parada, sentir o sol queimar a pele, o silêncio do previsível, o sabor do confortável. Há momentos em que apetece dizer “foda-se, oh vida, já chega de surpresas”, quando fiquei parada um momento e me deixei perder em fantasias. Há momentos em que penso “vá, a rotina até tem alguma piada”, e consigo sentir o calorzinho dela. Há até momentos em que penso que se calhar sou eu que sou parva em querer sempre reboliço e feitiço. Mas isso são momentos… aqueles momentos logo após uma surpresa má, ou aqueles momentos em que o sonho é maior do que o meu corpo. Na verdade, é o sobe e desce da minha vida que me transforma na mulher que sou e me aproxima de gente fantástica, ensinamentos, viagens e magia que nunca entrariam numa vida morna.

É nestas subidas e descidas que me descubro, que me desafio, que me rendo e que me supero. Cada subida tem a força de mil relâmpagos e cada descida tem o peso de cem planetas. Lá em cima é brilhante, é latejante, é orgásmico, mas lá em baixo é assustador, é desesperante, é cortante. Mas é nesse buraco escuro, em que às vezes caio e do qual penso que nunca vou conseguir sair, onde encontro a luz mais bonita que há em mim. É nessa cova pestilenta e solitária que encontro a minha voz, que encontro pedaços de mim que achei que não existiam, ou aqueles que pensei que não tornaria a ver.

Os dias passam e lá estou, despida e encolhida, mas de cada vez que acordo, vejo melhor os contornos do meu corpo, que ficam mais densos e nítidos que a escuridão. O negro passa a cinzento. E aí as lágrimas de desespero misturam-se com a certeza de que já estive naquele lugar. Olho à volta e reconheço as unhas cravadas na parede, as covas das lágrimas que bateram nos mesmos lugares, os cheiros dos corpos que suaram de mim, os sons de discussões, o sabor dos medos. Quando reconheço aquele lugar, quando me vejo nos seus mil espelhos, as lágrimas que pareciam ter só uma razão, caem por todas as razões do mundo. Sinto que não me choro só a mim, não choro só quem partiu, quem me desiludiu, não choro só os sonhos que se estilhaçaram, mas choro todos os choros, de todas as vidas e todos os lugares… e é nesse momento, em que não sou mais nada além de dor, em que começo a ver a minha libertação. Ali está… a saída…

Não culpo ninguém, ninguém me empurra ou atira para aquela cova. Eu caio inteira, sozinha, não levo comigo culpados e não saio de lá sedenta de vingança. Não desejo mal a ninguém, mesmo daqueles que se riem quando estou despida no meio da lama. Aqui não há culpados, há vidas, há medos, há dúvidas, há sentimentos. Aqui há humanos que brincam, que exploram, que se entregam, que recuam, que tentam…

Se eu vou deixar de tentar chegar ao cimo, porque caí muitas vezes? Nunca! De cada vez que caio e me ponho de pé, a subida é mais incrível! A vida traz-me cada vez subidas mais sublimes, completas e apaixonantes. Eu não serei aquela que fica dependente desse espaço (há tanta gente assim), eu não serei aquela que se agarra à escuridão, onde esconde todas as vontades, cala todos os amores e evita viver. Eu visito, mas não moro lá. Eu entro, mas saio, limpa e orgulhosa de mim. Saio mais bonita, saio mais sábia, saio mais Eu.

Há que aproveitar o sabor do céu, eterno a cada minuto. Esse sabor completo, repleto, que apaga enquanto dura, a lembrança daquela gruta…

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