A escuridão também pode ser uma dádiva

“Someone I loved once gave me a box full of darkness. It took me years to understand that this too, was a gift.” Mary Oliver

Perceber isto, sem fugas ou camuflagem, é tarefa a que poucos se querem dedicar. É mais fácil viver com ódio e rancor do outro, é mais fácil falar e desejar mal a quem nos “fez mal” (sim, porque isso é muito relativo). O culpado é sempre o outro. Essa é a forma mais simples, menos trabalhosa, somos cegos para os nossos papéis e ampliamos a responsabilidade do papel dos outros. Mas embora seja a estratégia mais fácil, prolonga-nos o sofrimento. Em vez de encararmos a dor de frente e tentarmos compreender o que aconteceu, usando-a para evoluir, não, usamos a dor para destruir o outro, de variadíssimas formas, e nesse processo destruímo-nos. E isto é algo que muitos arrastam uma vida inteira! Vidas inteiras de ódio e rancor, vidas inteiras numa prisão fechada por nós.

Encarar a dor de frente, dói, se dói. Dói a dor duma vida inteira, sentida num tempo muito mais breve. Não é uma dorzinha, não é um incomodozinho, não é um cortezinho… Dói MUITO, incomoda MUITO, e não é um corte, é um rasgão de cima abaixo, ficamos deitados, abertos, entregues ao desespero, sem poder fugir dele.

Para compreender esta dádiva é preciso passar muito mal, é necessário engolir a escuridão e deixá-la penetrar cada poro, como tinta de tatuagem. Nada fica como estava, nada! É preciso permitir-se sentir a revolta, a raiva, as saudades, a injustiça, a dor excruciante, o pavor, a solidão. Não adianta calar a dor com álcool, disfarçar as saudades com outros corpos ou repetir que “vai ficar tudo bem”. Não, não… se queres compreender o bem que pode nascer do mal que te foi ofertado, tens de dançar… tens de dançar com o demónio. E para dançares, tens de aceitar que às vezes seja ele a conduzir… Sim, ficas completamente vulnerável, completamente escuro, corpo escuro num espaço escuro. Assim, tu, feito 100% de dor, feito 100% de negro.

Tu, que apontas esse dedo esticado às pessoas que se cruzam em frente às grades da tua prisão, observa essa mão que tens fechada e que apertas com tanta força… abre-a e observa o que cai dela. A chave sempre esteve aí, nessa mão fechada a golpes de traição, engano, abandono, perda… e continua aí, à espera que escancares aquela porta…

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